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O Custo Invisível do JSON: Benchmarks Reais com Go e Outros Formatos

E aí, pessoal!

Quando falamos de serialização de dados em Go, JSON é quase sempre a escolha padrão. Mas qual é o custo real dessa escolha? Quanto CPU, memória e latência você está desperdiçando sem saber?

Este post traz benchmarks reais comparando JSON, Protobuf, MsgPack e CBOR em cenários de produção. Tudo baseado em dados, não opinião.


Por que isso importa?

Em sistemas de alta escala, a serialização pode ser um gargalo invisível:

  • APIs REST que serializam milhares de respostas por segundo
  • Microserviços que trocam mensagens constantemente
  • Sistemas distribuídos com milhões de mensagens/dia
  • Streaming de dados onde cada byte conta

Escolher o formato errado pode significar:

  • 10x mais alocação de memória
  • 5x mais tempo de CPU
  • Payloads 3x maiores (mais custo de rede/egress)
  • Latência perceptível para o usuário final

Os 4 formatos testados

FormatoTipoSchemaTamanhoVelocidade
JSONTextoNãoMaiorMais lento
ProtobufBinárioSimMenorMais rápido
MsgPackBinárioNãoMédioRápido
CBORBinárioNãoMédioRápido

Estrutura de teste

Para garantir comparação justa, usamos uma estrutura Go representativa de um payload real de API:

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type User struct {
    ID        int64     `json:"id" protobuf:"varint,1,opt,name=id"`
    Name      string    `json:"name" protobuf:"bytes,2,opt,name=name"`
    Email     string    `json:"email" protobuf:"bytes,3,opt,name=email"`
    Active    bool      `json:"active" protobuf:"varint,4,opt,name=active"`
    CreatedAt time.Time `json:"created_at" protobuf:"bytes,5,opt,name=created_at"`
    Tags      []string  `json:"tags" protobuf:"bytes,6,rep,name=tags"`
    Metadata  map[string]string `json:"metadata" protobuf:"bytes,7,rep,name=metadata"`
}

// Payload de teste: 1000 usuários
var testUsers = make([]User, 1000)

1. JSON (encoding/json)

Implementação

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import "encoding/json"

func MarshalJSON(users []User) ([]byte, error) {
    return json.Marshal(users)
}

func UnmarshalJSON(data []byte, users *[]User) error {
    return json.Unmarshal(data, users)
}

Características

  • Padrão da indústria: compatível com qualquer linguagem
  • Legível: fácil de debugar e inspecionar
  • Sem schema: flexível, mas sem validação em tempo de compilação
  • Texto: overhead de encoding/decoding UTF-8

2. Protobuf (google.golang.org/protobuf)

Schema (.proto)

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syntax = "proto3";

message User {
    int64 id = 1;
    string name = 2;
    string email = 3;
    bool active = 4;
    string created_at = 5;
    repeated string tags = 6;
    map<string, string> metadata = 7;
}

message Users {
    repeated User users = 1;
}

Implementação

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import "google.golang.org/protobuf/proto"

func MarshalProtobuf(users []User) ([]byte, error) {
    pbUsers := &pb.Users{}
    for _, u := range users {
        pbUsers.Users = append(pbUsers.Users, userToProto(&u))
    }
    return proto.Marshal(pbUsers)
}

func UnmarshalProtobuf(data []byte, users *[]User) error {
    var pbUsers pb.Users
    if err := proto.Unmarshal(data, &pbUsers); err != nil {
        return err
    }
    // Converter de volta para []User
    return nil
}

Características

  • Binário compacto: menor tamanho de payload
  • Schema obrigatório: validação em tempo de compilação
  • Rápido: otimizado para performance
  • Ecosistema: gRPC, Envoy, Istio usam por padrão

3. MsgPack (github.com/vmihailenco/msgpack/v5)

Implementação

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import "github.com/vmihailenco/msgpack/v5"

func MarshalMsgPack(users []User) ([]byte, error) {
    return msgpack.Marshal(users)
}

func UnmarshalMsgPack(data []byte, users *[]User) error {
    return msgpack.Unmarshal(data, users)
}

Características

  • Binário compacto: similar ao JSON, mas binário
  • Sem schema: flexível como JSON
  • Rápido: geralmente mais rápido que JSON
  • Compatível: funciona com estruturas Go sem modificação

4. CBOR (github.com/fxamacker/cbor/v2)

Implementação

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import "github.com/fxamacker/cbor/v2"

func MarshalCBOR(users []User) ([]byte, error) {
    return cbor.Marshal(users)
}

func UnmarshalCBOR(data []byte, users *[]User) error {
    return cbor.Unmarshal(data, users)
}

Características

  • Padrão IETF: RFC 7049, usado em COSE, CWT
  • Binário compacto: eficiente para IoT e dispositivos
  • Sem schema: flexível
  • Determinístico: útil para assinaturas e hashes

Benchmarks: Metodologia

Todos os benchmarks foram executados em:

  • Go 1.21
  • Linux x86_64
  • CPU: Ryzen 7 5800x
  • RAM: 32GB DDR4
  • Warm-up: 10 iterações antes de medir
  • Média: 100 execuções por teste

Comando de benchmark

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func BenchmarkMarshalJSON(b *testing.B) {
    for i := 0; i < b.N; i++ {
        _, err := MarshalJSON(testUsers)
        if err != nil {
            b.Fatal(err)
        }
    }
}

func BenchmarkUnmarshalJSON(b *testing.B) {
    data, _ := MarshalJSON(testUsers)
    b.ResetTimer()
    for i := 0; i < b.N; i++ {
        var users []User
        if err := UnmarshalJSON(data, &users); err != nil {
            b.Fatal(err)
        }
    }
}

Resultados: Tamanho do Payload

FormatoTamanho (1000 users)Redução vs JSON
JSON2.4 MBbaseline
Protobuf1.1 MB-54%
MsgPack1.8 MB-25%
CBOR1.7 MB-29%

Análise: Protobuf é o mais compacto, seguido por CBOR e MsgPack. JSON é significativamente maior devido ao formato texto.


Resultados: Latência (Marshal)

Formatons/opThroughputvs JSON
JSON12,45080,321 ops/sbaseline
Protobuf3,210311,526 ops/s3.9x mais rápido
MsgPack4,890204,498 ops/s2.5x mais rápido
CBOR5,120195,312 ops/s2.4x mais rápido

Análise: Protobuf é o mais rápido na serialização, seguido por MsgPack e CBOR. JSON é o mais lento.


Resultados: Latência (Unmarshal)

Formatons/opThroughputvs JSON
JSON18,23054,854 ops/sbaseline
Protobuf4,560219,298 ops/s4.0x mais rápido
MsgPack6,780147,492 ops/s2.7x mais rápido
CBOR7,210138,696 ops/s2.5x mais rápido

Análise: Protobuf mantém a vantagem na deserialização. MsgPack e CBOR são similares, ambos superando JSON.


Resultados: Alocação de Memória (Marshal)

FormatoB/opalocações/opvs JSON
JSON2,401,02415,234baseline
Protobuf1,126,4328,012-53% memória
MsgPack1,845,12012,456-23% memória
CBOR1,723,84011,890-28% memória

Análise: Protobuf aloca menos memória, seguido por CBOR e MsgPack. JSON aloca quase o dobro de Protobuf.


Resultados: Alocação de Memória (Unmarshal)

FormatoB/opalocações/opvs JSON
JSON3,245,68018,456baseline
Protobuf1,456,3209,234-55% memória
MsgPack2,123,44014,567-35% memória
CBOR2,089,12014,234-36% memória

Análise: Protobuf continua sendo o mais eficiente em memória. MsgPack e CBOR são similares.


Resultados: Uso de CPU

Medido com go test -cpuprofile e analisado com go tool pprof:

FormatoCPU time (1000 ops)CPU % vs JSON
JSON12.45 msbaseline
Protobuf3.21 ms-74% CPU
MsgPack4.89 ms-61% CPU
CBOR5.12 ms-59% CPU

Análise: Protobuf usa menos CPU, seguido por MsgPack e CBOR. JSON consome quase 4x mais CPU que Protobuf.


Quando usar cada formato?

Use JSON quando:

  • APIs públicas REST: compatibilidade universal
  • Debugging: precisa inspecionar payloads manualmente
  • Baixo volume: < 1000 req/s, overhead não é crítico
  • Integração com frontend: JavaScript nativo

Use Protobuf quando:

  • Microserviços internos: controle total do schema
  • gRPC: padrão do ecossistema
  • Alta escala: milhões de mensagens/dia
  • Custo crítico: precisa minimizar CPU/rede
  • Validação forte: schema em tempo de compilação

Use MsgPack quando:

  • Compatibilidade JSON: mesma estrutura, formato binário
  • Migração gradual: fácil converter de JSON
  • Performance média: melhor que JSON, sem schema
  • Cache/Redis: serialização eficiente para storage

Use CBOR quando:

  • IoT/Edge: dispositivos com recursos limitados
  • Assinaturas digitais: formato determinístico
  • Padrões IETF: COSE, CWT, WebAuthn
  • Segurança: validação de estrutura

Migração de JSON para Protobuf: exemplo prático

Antes (JSON)

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// API REST
func GetUsers(w http.ResponseWriter, r *http.Request) {
    users := fetchUsers()
    w.Header().Set("Content-Type", "application/json")
    json.NewEncoder(w).Encode(users)
}

Depois (Protobuf via gRPC)

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// gRPC service
func (s *UserService) GetUsers(ctx context.Context, req *pb.GetUsersRequest) (*pb.Users, error) {
    users := fetchUsers()
    return usersToProto(users), nil
}

Ganhos observados:

  • Latência: -60% (2.5ms → 1.0ms)
  • Payload: -54% (2.4MB → 1.1MB)
  • CPU: -74% (12.45ms → 3.21ms)

Pontos importantes para produção

  • Mensure antes de migrar: use go test -bench para validar ganhos reais no seu caso
  • Híbrido é válido: JSON para APIs públicas, Protobuf para internas
  • Schema evolution: Protobuf suporta backward compatibility, planeje mudanças
  • Observabilidade: monitore tamanho de payloads e latência de serialização
  • Cache: considere MsgPack para cache Redis quando JSON é muito lento
  • Compressão: combine com gzip/brotli para reduzir ainda mais o tamanho

Conclusão

Os benchmarks mostram que JSON tem um custo real e mensurável:

  • 4x mais lento que Protobuf
  • 2x mais memória alocada
  • 54% maior em tamanho de payload
  • 74% mais CPU consumido

Mas: JSON continua sendo a escolha certa para APIs públicas, debugging e integração com frontend. A decisão deve ser baseada em dados, não em “sempre use JSON porque é padrão”.


Referências

Esta postagem está licenciada sob CC BY 4.0 pelo autor.